"O ser humano não consegue viver sem paixão. E a paixão é o estado
no qual todos os seus sentimentos e ideias se encontram no mesmo
espírito. Tu podes pensar, quase ao contrário, que é o estado em que um
sentimento se torna todo-poderoso, um único sentimento que atrai a si
todos os outros - um arrebatamento! Não, não querias dizer nada? Seja
como for, é assim. Também é assim. Mas a
força de uma tal paixão é imparável. Os sentimentos e as ideias só
ganham continuidade quando se apoiam uns nos outros, na sua totalidade,
têm de se orientar no mesmo sentido e arrastam-se uns aos outros. E o
ser humano tenta por todos os meios, pela droga, pela ilusão, pela
sugestão, pela crença, pela convicção, por vezes apenas recorrendo ao
efeito simplificador da estupidez, criar um estado semelhante àquele.
Acredita nas ideias, não por elas às vezes serem verdadeiras, mas
porque tem de acreditar em alguma coisa. Porque tem de manter os
afectos em ordem. Porque tem de tapar com alguma ilusão o buraco entre
as paredes da vida, para não deixar que os seus sentimentos se espalhem
ao vento. O caminho certo seria o de, em vez de se entregar a estados
ilusórios, procurar pelo menos as condições da autêntica paixão. Mas,
feitas as contas, embora o número de decisões que dependem do
sentimento seja infinitamente superior ao daquelas que se podem tomar
com a pura razão, e todos os acontecimentos decisivos para a humanidade
nasçam da imaginação, só as questões da razão se mostram ordenadas de
forma suprapessoal; para o resto, nunca se fez nada que mereça o nome
de esforço comum ou que sugira sequer a consciência da sua desesperada
necessidade."
Musil, Robert
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